domingo, 24 de julho de 2011

Peça "As Ilusões da Alma"

Em 2002 (31/12) escrevi uma peça cristã de conteúdo evangelísco chamada "As Ilusões da Alma". Essa peça foi feita pensando em como poderia ser transposta a dinâmica de Hamlet de Shakespeare, pelo menos cartas partes dela, como veículo da mensagem cristã. Isso não é coisa nova, vários autores desde os tempos de Cristo produziram obras alegóricas sobre a alma e suas ilusões.

Apresentamos esta peça em minha igreja em 2003 e depois nunca mais tive a oportunidade, muitos, e eu mesmo, achavam a retórica pesada e a linguagem difícil, mas isso foi feito pensando na cadência poética do texto ( e das falas), outra forma não me parecia adequada.

Esqueci, até que por esses dias meu cunhado me falou das peças. Abri o computador e fiquei emocionado em lê-la. Decidi então fazer uma busca na internet, porque em algum tempo disponibilizei esta peça para quem quisesse usar, qual não foi minha surpresa em encontrá-la no site Teatro Cristão e sua montagem em algumas igrejas no YOU TUBE.

Uma semente que germinou, pertence a Deus. Não me importo de não ter sido citado, mas é fato que o escritor pode esclarecer "pontos obscuros da peça", seja como for, que produza seus frutos.

Vou disponibilizá-la novamente aqui e deixar que quem quiser fazer a montagem que use a imaginação.

(Opa, temos agora também uma versão atualizada: http://isaiasoliveira.blogspot.com.br/2012/09/peca-as-ilusoes-da-alma-versao.html)




AS ILUSÕES DA ALMA


          
Alma -Porque te abates ó minha alma, e porque te perturbas dentro de mim? Deverei naufragar diante do turbilhão que me ataca ou resistir às forças do mundo que em meu peito combatem? Ah, como tenho buscado em vão essa resposta, enquanto vejo a solidão a abrir-me seus sombrios braços quais tentáculos de uma besta marinha que arrebatam a indefesa vitima. Sim, nesse mar de desilusões, sou joguete das ondas peraltas que brincam com minha pobre alma, ora lançando-me sobre as rochas, ora sufocando-me na tempestade. (pequena pausa, toca uma musica triste, entra um personagem representando a solidão trazendo nas mãos um pano preto, cobre a alma com o pano, retira, passa-lhe no rosto e sai)
Alma- Porque estou aqui e não lá (aponta para a  frente), quem me pôs aqui e porque sou quem sou? Sou fruto do acaso, esse ancião excêntrico, ou existo por ordem superior? Porque sinto-me tão vazia se estou completa, e se não, o que me falta ?
(Entra o evangelista)
Evangelista- Te falta nascer de novo !
Alma- Quem és tu, e o que é isto que falas ?
Evangelista- Eu sou a voz que clama nos desertos: “ Eis que vos trago boas novas que serão para todos os povos,  hoje é o dia aprazível, o dia em que o Senhor vos receberá em seus átrios eternos”. E quanto ao que eu disse, que te falta nascer de novo...( a alma o interrompe)
Alma- E como eu poderia nascer de novo, retornaria eu para o ventre da minha mãe sendo já adulta?!
Evangelista- Nascer de novo sim, mas não da carne e sim do Espirito.
Alma- Como isso é possível ?
Evangelista- Algum tempo atrás, na aldeia de Belém, inocente e indefeso, deitado numa manjedoura, estava o menino Jesus, Aquele cuja alma estava destinada a ser o resgate... (Entra a religião e um soldado)
Religião- Cala-te rufião! (Aproxima-se) Estás de novo querendo semear a discórdia? O que queres com as tuas quimeras?
Evangelista- Não proclamo fantasias como tu, prego a verdade de Deus...
Religião- A verdade, o que é a verdade ? Como tens a pretensão de conhecer  a verdade, tu tens formação teológica? Conhece os meandros da filosofia? Diga-me ignorante, o tempo é relativo, aparente ou cognitivo ? Bem vejo que não sabes, ( diz ao soldado) levai esse tolo daqui,  torturai-o, rasgai as suas carnes, metei-o num tronco e lançai fogo sob seus pés, depois moei-lhe os ossos e espalhai-os sobre o mar para vermos se os peixes se convertem. (sai o soldado levando o evangelista que canta ”mais perto quero estar, meu Deus de ti...)
Alma- Senhora, o que fez este homem para que mereça isto ?( Antes de responder a religião põe uma cadeira no centro do palco , onde faz a alma sentar)
Religião- Filha, não precisamos de mais idéias metafísicas, esses loquazes vem com suas falácias tentando desencaminhar meus filhos, que atrevimento! Tudo o que precisais eu vos dou, eu tenho a verdade, não precisais de outras verdades.
Alma- Se tens a verdade então o que podes por mim fazer ?
Religião-  Filha, olha para mim, vede quem sou (a alma olha para a religião sem entender nada ) ora, eu sou a senhora do mundo, nasci no primeiro fogo da antigüidade, assumi mil formas e mil faces, estou presente em todos as terras, para mim convergem todos os paradoxos, crio o paraíso e abro a perdição, países inteiros estão aos meus pés, por mim os homens fazem caridade uns aos outros e matam-se também, mas o que é importante, morrem felizes pois vão para um  paraíso de virgens[1] com olhos grandes, ou reencarnam[2]  em outros corpos para tentar novamente, de homens, de bestas, de insetos, de gérmens, quem liga  se serão deuses[3]? Eu lhes dou a liberdade da ilusão.
Alma- Estou cansada de ilusões celestes...
Religião- Ah, eu sei o que dizes, queres a virtude na terra, pois eu tenho isso para ti, se não queres deuses recebe então os dogmas daqui, o espirito religioso está em toda parte, está nas idéias políticas  que levam a revoluções sangrentas, está no ateísmo que crê num  não-deus, é preciso muita fé para isso, talvez queiras um credo cientifico, eis aqui um: Creio no acaso absoluto que deu origem ao universo, creio que toda a matéria estava contida num ponto minúsculo, creio na grande explosão que lançou essa matéria por todo o sei lá o que, creio que toda a matéria estava dispersa pelo sei lá o que, creio que a matéria se condensou  formando os corpos espaciais,  creio que a matéria se condensou formando a terra por mero acaso nesta região do espaço, creio que a vida se formou na sopa primordial do que não vive[4], creio que gérmens minúsculos evoluíram por acaso dando origem a todos os animais, creio que o homem já foi um macaco, creio que...(entra a riqueza)
Riqueza- Falas demais e não sabes o que dizes!
Religião- Como ousas interromper-me ?

Riqueza- Já falaste demais e não convencestes esta pobre alma, pela justiça, deixa que eu tente, se é que tens coragem ?( A religião dá de ombros e senta-se) então minha filha o que aprendestes ?(pergunta para a alma)

Alma- Que  a religião se alimenta da ilusão!
Riqueza- Disseste bem, a religião se alimenta na ilusão. Eu porém não ofereço o céu, ofereço a terra. Adquirir bens é o fim para que se destinam os homens. Vede um homem de posses, esse sim é importante, o seu valor não consiste no que pensa, mas sim no que tem, até o céu dos ingênuos é revestido de ouro[5], pesa o valor das riquezas e vê se não é o capitalismo o senhor dos senhores do mundo, eu te pergunto, hoje o que fazes sem o dinheiro? Até a religião depende de mim, vede seus ricos templos adornados, seus pomposos sacerdotes, sim filha, abraça-me como o mais alto ideal da tua vida e terás  a religião aos teus pés, serás adornada com ouro e pedras preciosas e até os príncipes te terão por senhora.(Entra o poder)
Poder- Tu crês nessa Senhora alma aflita?

Riqueza- O que queres? Ainda não terminei minha preleção.

Poder- Já tivestes tua chance, não seja avarenta, deixai que eu mostre a verdade a esta alma. O que dizes alma?
Alma- Quereis perder-me com vossas conversas, mas que posso eu ? Falai! (A riqueza move a cabeça em sinal de indignação e senta-se)
Poder- Essas duas senhoras argumentaram muito, mas apenas com sofismas[6]. Pensa comigo, alma, qual a razão de um homem se declarar sacerdote e colocar-se como mediador do além? É o puro desejo de dominar, ou seja poder. Ainda te pergunto, para que servem as riquezas ? Eu te digo, para adquirir poder. O poder traz todas estas coisas, o poder é tudo. O desejo primário do homem é dominar o homem e o seu desejo final é dominar o universo. Vede Nabucodonosor da Babilônia, Ciro da Pérsia, Alexandre da Macedônia, Júlio César de Roma, Átila dos  Hunos, Carlos Magno, Napoleão, Hitler, todos buscavam poder. Me ama filha e eu escreverei teu nome na coluna da história ao lado de todos os grandes. (uma gargalhada e entra o prazer)

Prazer- Falaste  como se foras um deus, mas és um demônio que procura seduzir com promessas vãs.

Poder- Imprudente, me chamas de demônio ? Te farei engolir estas palavras.

Alma- Tu não exigistes teu  direito de falar, ó poder, agora deixa que este também fale .
Poder- Por enquanto... (senta)

Prazer- Eu irmã alma, não te chamo de filha mas de irmã porque em mim todos são iguais, eu, o prazer sou o fim que procuras. A religião, a riqueza e o poder existem apenas para me satisfazer, eu sou a coluna que mantêm o mundo em pé, eu sou o motor das conquistas, eu sou a satisfação ilimitada. Eu te ofereço os prazeres sensíveis e psicológicos, eu crio as drogas, as orgias, a  aventura. Queres prazer artificial, eis a cocaína ou os naturais eis a adrenalina e a endorfina, ou físicos, tens a concupiscência a tua vontade. Quem sabe és requintada ? Aceitas um chá alucinógeno ? Quem sabe cogumelos do campo ou o ayahuasca[7]  da Amazônia ? Maconha, heroína, crack, Lsd, extasi, tudo será teu !

Me ame e talvez morrerás cedo mas viverás plenamente !
Religião- E então alma, o que decidis, a quem escolhes ?
Riqueza- Será a mim?
Poder- Ou a mim ?
Alma- Estou indecisa, deixai-me um pouco a sós, para que eu medite no que me dissestes, e então me entregarei a quem mereça.
Religião- Te daremos algum tempo minha filha, afinal és um espírito esclarecido, hás de escolher com sabedoria ( leva os outros três a parte e lhes diz) deixemos que a tola escolha, mas se não escolher por perceber que somos todos a mesma coisa e que lhe iludimos, lançaremos mão dela e  lhe faremos o que bem quisermos e depois deixaremos sua odiável carne apodrecer ao sol.
(Saem a religião, a riqueza, o poder e o prazer)
Alma- Agora sim me vejo em desespero pois estas raposas querem me devorar, mas o que farei ? Logo percebi em seus discursos a semente do erro, Ah , onde estarás tu meu pobre evangelista, agora entendo que tu eras o único sincero  e que por minha causa sofrestes o agravo a própria vida, se eu pudesse fazer voltar o tempo, então te interrogaria e não te deixaria até que me dissesses tudo. Agora alma, rejeitastes o bem, terás o que merece nas mãos desses predadores. Lá vem as sombras da morte, qual abutres sobre  a carniça.
(Entram a religião, a riqueza , o poder e o prazer.)
Religião- O que decidistes alma, de quem será o teu eterno amor?
Alma- Decidi que sois odiosas a minha alma e que estais somente a me enganar e se quereis saber, terras estéreis, eu vos rejeito a todas, como falais em amor hipócritas vós que devorais a terra com vossas rapinas?
Pensas que me engana religião? Bem sei o que és, vieste a mim com essa estória de conciliar contradições,  és  a face do mal, queres me fazer crer que a verdade é relativa, a verdade[8] pela sua própria natureza é absoluta, rejeito-te! E tu riqueza, pensas me enganar como? Ora para que fiques sabendo eu te digo que o valor de um homem não está no que ele tem, senão no quão honestamente vive, correr atrás de riquezas é o mesmo que construir castelos de areia à beira da praia. Rejeito-te!
E tu poder, pensas que pode tudo, onde estão esses homens que usastes como exemplo ? Nabucodonosor [9] come grama no campo, Ciro jáz esquecido sabe-se lá onde, Alexandre foi levado pela febre em Babel[10], eis César assassinado por Brutos[11], e os outros onde estão ?
No esquecimento. Rejeito-te! E tu prazer, és o mais ilusório de todos, pois uma dor de cabeça te torna inútil. Quantas almas pensaram te possuir quando eram na verdade tuas escravas, o prazer é como a chama da vela, queima-se o pavio, extingue-se o fogo.
Rejeito-te!
Religião-  Não tens a liberdade de rejeitar o que quer que seja tola ingrata, receberás a tua paga, lançemo-lhe mãos!
(Jogam a alma de um lado para o outro, batem-lhe, lançam-lhe ao chão)
Alma- Quem seria capaz de me livrar desse terror ?
EU SOU! (Uma voz bem alta, as atacantes caem ao chão, Jesus entra com o evangelista e vai até onde a alma esta caída)
Alma- Senhor eu não sou digna de ti, rejeitei o conselho do teu servo.
Jesus- Eu não te rejeito, Eu sou o bom pastor, o bom pastor dá a vida pelas ovelhas, os outros são mercenários. Eis que estou a porta do teu coração e bato, se tu me abrires a porta eu entrarei e viverei contigo e tu comigo, o que vem a mim de modo algum lançarei fora, eu sou o caminho e a verdade e a vida.
Evangelista- Eis o dia aprazível, eis o dia da salvação. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça mas tenha a vida eterna!
Alma- Senhor, eu creio! Senhor eu abro a porta, entra Senhor.
(Jesus coloca a alma em pé)
Jesus- Vinde bendita de meu pai, recebei por herança o reino que te está preparado desde a fundação do mundo ! (saem Jesus e a alma)
Evangelista- Se hoje ouvirdes a sua vós não endureçais o vosso coração, sede prudentes e construi a vossa casa sobre a rocha Jesus Cristo e não direcioneis o vosso coração a  coisas como essas (aponta para as caídas) algo delas até é licito[12], mas não sejam elas o vosso fim pois elas passam como o dia de ontem! (sai o evangelista).




FIM


[1] Paraíso de virgens com olhos grandes: concepção islâmica do Paraíso.
[2] Reencarnam: a transmigração das almas é crença de varias religiões. O Espiritismo ensina que os homens reencarnam  em corpos humanos já o Hinduismo aceita a metempsicose em corpos de animais. Grupos animistas da África acreditam que as almas encarnam em seres inanimados (árvores, pedras, cachoeiras, etc.).
[3] Crença do Mormonismo.
[4] Crença evolucionista de que os seres vivos surgiram por acaso  de elementos sem vida.
[5]As ruas serão de ouro na nova Jerusalém. 
[6] Sofisma: argumentação que visa induzir ao erro, engano, logro.
[7] Aiahuasca: planta com características alucinógenas usada  nos rituais da seita “Santo Daime”  e que propiciaria viagens fora do corpo.
[8]Verdade: cabe aqui o que Jesus afirmou “Eu sou a verdade”, não uma verdade mas a verdade.
[9] Ver Daniel 4.
[10] Alexandre Magno morreu na Babilônia, de uma “febre”.
[11] Júlio César  teve a infelicidade de ver entre seus assassinos seu filho adotivo Brutos.
[12]Há algumas verdades misturadas aos seus erros.




Adaptações encontradas:



3 comentários:

João Victor Lopes Rios disse...

Olá Paz do Senhor,por gentileza gostaria de saber o nome desse fundo musical tocado nessa peça.
Muito Obrigado

João Victor Lopes Rios disse...

Olá, Paz do Senhor.
Por gentileza poderia me dizer/passar o nome desse fundo musical tocado nessa peça?.
Obrigado

Isaías Oliveira disse...

Olha João, não sei ao certo. Como eu disse, só escrevi e disponibilizei, não tive controle sobre as adaptações.

Shalom!

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